sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Quantas Marias mais?



Vale do Jequitinhonha 
Vale do Jiquiriçá
Nau da moça que sonha
Mar do mais tardar

Vivência de luta
acordo de eternidade
Canções de roda
no chão da cidade

Duas crias, frias
Vã mulher, vã pelo mundo
distante do seu perfeito
de sorriso raso, não profundo

Sorriso de dia a dia
Choro de noite a noite
A sobreposição da sinestesia
do grão feito de açoite

Quantas Marias mais
Dentro dos vales?
Quantas marias faz
o oposto do tal baile?

À beira do mar, do rio
À beira do cais, do frio
Do cheio, do meio e do vazio
Das beiras da emoção vivida.

Do cheiro sentido
do sexto sentido
no universo perdido
de entradas, trancas e saídas.

Maria vive de esperança
Vive pra cima, pra frente
Carece de vida, mudança
No seu real sol poente

A obtusidade do seu mundo
Transforma seu coração
Braços fortes, fé amolada
Nos becos, na luz, na mão

Quantas Marias mais
Vagam por becos, cabanas?
Quantas Marias em paz
Nos fins de suas semanas?

É MARIA assim
ou maria assado?
Das noites quentes
Dos dias gelados.

Quantas Marias mais
Serão poesia de choro?
Quantas Marias mais
Serão músicas de novo?

Quantas Marias mais
gerarão Miltons e Josés?
Quantas Marias mais
Do mundo, aos pés?

E quando Maria jaz?
O filho Brasil junto vai
Pra vida no vale do dia
Pra onde o chão não fica, cai.

Poesia inspirada na música Maria, Maria, de Milton Nascimento.




segunda-feira, 1 de junho de 2015

Gonzaguinha e a genialidade versátil

Da gama regular de artistas que durante a vida aprendi a apreciar, nenhum se iguala a Gonzaguinha. Fui iniciado no som multidisciplinar do cantor e compositor durante o segundo ano de ensino médio, em 2012, quando meu melhor amigo me apresentou algumas músicas que, de acordo com ele, eram geniais, espetaculares, "cabriocáricas" (palavra utilizada por este amigo, sem o conceito quixeramobinense, para elogiar as coisas). 

O cigarro na mão era marca registrada
Fixei numas músicas que pegaram logo na mente, como é o caso de "Alô, alô Brasil" e "Recado" e, naquele momento, soube que já conhecia músicas do cara sem saber que era dele, casos de "Lindo lago do amor" e "O que é, o que é". Tempos passaram, o repertório aumentou e Gonzaguinha virou, para mim, o maior compositor que este país já teve. Ao dizer isso algumas vezes, ouvi de muita gente que era louco. Artistas como Chico Buarque me impressionam muito pela genialidade e isso me faz entender a defesa do posto deste, mas Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior é a figura do gênio versátil, e a partir de agora vou dizer, sem mais floreios, o porquê deste posto. Assim o farei trazendo observações acompanhadas de algumas músicas que representam essa versatilidade aqui observada para vocês, leitores.

1) Início da carreira e "Viva la Revolución!":

Num Brasil fervoroso, Gonzaguinha ganhava suas primeiras espinhas no rosto. De pai com essência militar, viu no comunismo sua guarida e, assim, trabalhou em músicas de resistência. Foi grande crítico da ditadura com músicas como "Comportamento Geral", "Sorriso nos lábios" e a genialíssima "A fábrica de sonhos", que aqui destaco, pela grande efetividade das comparações e metáforas feitas pelo compositor na letra, dentro do seu caráter crítico, ácido e mobilizador.

Pra Gonzaguinha, milagre (Econômico) rima com Vinagre (ácido),
e Mateus, que muitos matou, é ditadura

2) A quietude e o amor. Gonzaguinha é Eros!

Gonzaguinha falou de amor, mas falou muito de amor, até por muito ter amado e também por ter lhe faltado muito amor. Contraditório, mas é justamente o que dá o caráter especial das canções do mestre em questão. Nestes casos, destaco "Espere por mim, morena", "Grito de alerta", a lindíssima "Diga lá, coração" e "Mamão com mel", que aqui fixo, pela sua essência puramente amorosa,  para muitos, piegas. Que seja piegas! rs.


3) O suor, o toque, o arrepio. Gonzaguinha é Vênus!

Gonzaguinha foi amor e também foi sexo. A sensualidade de algumas de suas obras impressiona pela realidade vinda de uma canção. Transcende a mera expressão sexual e parte para a realidade diária do ser humano convencional. Sem mais comentários, chamo atenção para "Ponto de interrogação", "Começaria tudo outra vez" e "Avassaladora", que aqui deixo marcada, pela elegância do compositor em não vulgarizar e, com maestria, retratar a sensualidade numa canção.


4) O samba do moleque.

Como carioca de essência, o moleque - como sempre se designava - foi também sambista. Trabalhou neles a sua experiência de vida, as pessoas que observava e cotidianamente vivia. O trabalho genial com o cavaquinho e a percussão de Gonzaguinha pode ser observado em O Homem Falou, Com a Perna no Mundo e "Vamos à luta", que aqui destaco pela imensa brasilidade aplicada à letra. 



5) O inspirador

Trabalhando com versatilidade, certamente Gonzaguinha iria inspirar muito, e assim o fez. Inspirou diferentes gerações, de diferentes gêneros, que carregam uma coisa em comum: A admiração pela genialidade desse grandioso moleque. Casos como "Por um Segundo" e "De volta ao começo" genialmente interpretadas por Nana Caymmi. Porém, trago aqui a interpretação da Banda Scambo de Ocê e Eu. 



Por fim, trago para vocês as três músicas que ficam no topo da minha playlist quando se fala em Gonzaguinha. 

1) Sonhos Brasis

Infelizmente, essa música não é encontrada na plataforma Youtube. Sendo assim, adicionei à minha conta do SoundCloud e ela está aqui!




2) Artistas da Vida

>mesmo caso de sonhos brasis, para verem o quanto a obra de certos gênios estão sendo esquecidas pelo "mundo", que sempre acaba limitando-se ao que há na internet.
Porém, nesse caso eu não consegui postar no meu soundcloud, pelas questões de direitos autorais. Fica pra próxima!

3) Simplesmente Feliz
Essa é espetacular! Minha favorita da vida! Muito boa, de letra sensacional, de muita reflexão e não tão fácil interpretação. TOP!



E com essa música fantástica eu encerro essa lista do mestre Gonzaguinha. Espero ter ajudado um pouco no conhecimento musical de todos e que principalmente Gonzaguinha tenha tocado a todos como me tocou profundamente.

Aquele abraço!
Até a próxima!

domingo, 10 de maio de 2015

O mar vem



Quando o mar não vem
Tristeza é o cais
Imerso n'areia pura
Distante, sedento

Quando o mar não vem
boa tarde, corais
casa nobre, escura
do porquê, de vento.

E se o mar não vem.
Não me vem a paz
Só chão de secura
ser de frio e relento

Mas o mar não vem
pois precisa mais
tanta firmeza e bravura
carece de mais alento

E se o amar vem
a tristeza jaz
vira lembrança, gravura
do lado avesso de dentro

E, assim, o mar vem
E emociona, é tenaz
de corpo verde e alma pura
me faz poeira, momento.

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